A Vontade Senhor para Sua Igreja – Parte I
A principal razão de estudarmos as sete igrejas descritas por João no livro de Apocalipse é conhecermos de forma clara e objetiva, qual é a vontade do Senhor com relação a Sua igreja.
Hoje se um homem realmente quer andar no caminho do Senhor, ele deve ler e entender a revelação do Mestre nos capítulos 2 e 3 de Apocalipse.
Por outro lado, Jesus já havia revelado por meio de parábolas, aos seus mais íntimos seguidores os “mistérios do Reino dos Céus”, cuja essência é Sua igreja, a igreja do amor fraternal. Estas sete parábolas descritas por Mateus no capítulo 13, são desvendadas por João com a revelação das sete igrejas em Apocalipse que são os “sete candeeiros de ouro”.
Todos estes mistérios são abertos com a chave dada pelo Senhor à Sua igreja, àqueles que adoram o Senhor em Espírito e em Verdade. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Senhor diz às igrejas”.
Porque o Senhor falava em parábolas? Exatamente porque só aqueles que tem o coração voltado verdadeiramente ao Senhor, os “pequeninos”, aqueles que Ezequiel profetiza: (Ez 11:19) “Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei de carne”; estes têm capacidade para ouvir a voz do Senhor.
Assim, nessa época em que vivemos e que antecede a volta do Senhor, é importante que nos situemos aos desejos do Pai com relação à Sua igreja e não fiquemos como “ meninos agitados”, misturados e corrompidos pelos apelos denominacionais e organizacionais que giram a nossa volta, sem buscarmos compreender qual a verdadeira vontade do Senhor.
Que o Espírito Santo nos ajude a entender de forma clara, todos os mistérios revelados por Jesus a João, com relação ao Reino dos Céus e a Sua igreja.
Igreja em Éfeso
Leituras: Ap 2: 1 - 7 e Mt 13: 1-9
A palavra Éfeso em grego, significa desejável. Significa a “boa terra” em que a semente da parábola do semeador caiu e frutificou. Esta profecia do Senhor se refere ao primeiro estágio da igreja depois dos apóstolos. A era apostólica foi até o ano 96 DC. Depois do ano 96 DC, a era apostólica acabou, e muitas coisas erradas começaram a ser infiltradas na igreja.
O Senhor disse: “Conheço as tuas obras, assim o teu labor como a tua perseverança”. Entre as sete igrejas, cinco foram censuradas, uma não recebeu nem censura nem louvor e apenas uma foi louvada. Éfeso é uma que foi censurada. Aqui o Senhor expõe a realidade espiritual da igreja em Éfeso. De uma forma doce o Senhor vê esta realidade e apesar dos problemas, mesmo assim mostra que ama Sua igreja. É como aquele garotinho que foge para a rua e volta coberto de lama. É verdade que seu corpo está coberto de sujeira, mas a sujeira não veio dele. Uma vez lavado ele ficará limpo novamente. Cada filho de Deus deve ver que mesmo antes de ser lavado, ele é bom. A sujeira é uma mentira, a realidade dele é boa. Hoje a igreja não parece tão gloriosa, mas, Deus a vê assim, como Ele nos revela no livro de Efésios 5 :25 – 27 “gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito”. Deus disse que a igreja de Éfeso é boa, desejável; sua realidade espiritual é que é boa, desejável.
“e que puseste à prova os que a si mesmo se declaram apóstolos e não são, e os achastes mentirosos” .Aqui o Senhor diz algo sobre provar os apóstolos o que mostra que após a era apostólica, ainda havia apóstolos na igreja. Nesta época todos os onze apóstolos já haviam morrido e restava apenas João. A necessidade de os “apóstolos” serem provados confirma que após os doze apóstolos houve ainda outros.
“Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor...e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro , caso não te arrependas” . Na parábola do semeador vimos que a semente que fora semeada em terra boa e fértil, cresceu a frutificou, porém, a boa terra deixou de ser cultivada, regada com a água do Espírito e assim perdeu o primeiro amor. O coração, como a boa terra, começou a ficar “endurecido”; a semente da Palavra começou a cair a beira do caminho.
Essa igreja tinha boas obras, labor, perseverança e clareza quanto a verdade doutrinária. Além disso ela suportou provas por causa do amor do Senhor. Perdeu, porém, o primeiro amor, que advém da comunhão da Palavra. Enquanto o Nome do Senhor leva-nos a comunhão com Ele, a comunhão da Palavra leva-nos a crescer em vida com Ele.
“lembra-te de onde caíste, arrepende-te e volta a prática das primeiras obras” ;...Deus queria que a igreja em Éfeso voltasse a ser uma boa terra, plena de vida e amor divino. Por isto, Ele exortou a arrepender-se. Se os irmãos em Éfeso removessem o trânsito do mundo, retirassem as pedras e os espinhos, os problemas da igreja estariam resolvidos, e ela se tornaria novamente desejável e frutífera para Deus. Não podemos deixar que o trânsito do mundo (a televisão, as informações mundanas, o modismo, etc...) destrua a boa plantação do Semeador que é Cristo.
Assim, é, também, comparando ainda com a parábola do semeador, aqueles que tem o coração pedregoso e não absorvem a água da Palavra e do Espírito, fazem com que a boa semente morra. Depois de salvos a semente penetrou, mas; foi temporário tinha pouca raiz. Precisamos ajudá-los a retirar as pedras, a afofar a terra, a cultivar a Palavra de Deus.
“Tens, contudo, a teu favor, que odeias as obras dos nicolaítas, os quais Eu também odeio” Nicolaíta, em grego, é composta de duas palavras nikao que significa conquistar ou sobre os outros e laos que significa povo comum, povo secular ou laicato. Então nicolaíta significa conquistando o povo comum ou subindo sobre o laicato, subindo sobre os “outros”.
Portanto, nicolaítas refere-se a um grupo de pessoas que se auto – avaliam muito acima dos crentes comuns. O Senhor está acima, os crentes comuns estão embaixo. O Senhor diz que odeia o comportamento dos nicolaítas. Querer elevar-se sobre os demais, tentando ser uma classe mediadora é o que o Senhor detesta; é algo para ser odiado. Mas naquela época havia somente o sentimento; este ainda não se havia tornado um ensinamento e/ou doutrina.
No novo testamento há um princípio fundamental. Todos os filhos de Deus são sacerdotes.(1ª Pedro 2:9). No antigo testamento esta era também a vontade do Senhor. Em Êxodo 19, Deus convocou o povo de Israel dizendo: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes minha voz, e guardardes minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós sereis reino de sacerdotes e nação santa”. Deus ordenou no princípio que todos fossem sacerdotes; mas, não muito depois, ocorreu o incidente da adoração ao bezerro de ouro. Moisés quebrou as tábuas da Lei e disse “Quem estiver do lado de Deus mate a seu irmão” Os levitas permaneceram do lado do Senhor e, como resultado, naquele dia três mil israelitas foram mortos (Ex 32:25-29). Doravante, somente os levitas poderiam ser sacerdotes. A classe sacerdotal do velho testamento, portanto era uma classe mediadora. Mas, graças ao Senhor, no novo testamento, nesta era da graça, Pedro noz diz “vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (I Pedro 2:9). Nós, a igreja toda somos sacerdotes, isto retorna à condição do inicio.
Hoje, na Igreja Católica Romana e nas Igrejas Protestantes, tudo é realizado pelos padres e pastores. Impor as mãos, batizar, casamentos, funerais, devem ser dirigidos pelo “clero”. Para doenças, chame um médico, para assuntos legais, chame o advogado, para assuntos espirituais chame o pastor e/ou o padre.
O Senhor fica satisfeito com os que rejeitam a classe mediadora. Se o sangue o lavou, você tem participação direta nos assuntos espirituais. A igreja só pode ser fundamentada nesta base; do contrário, é judaísmo.
Hoje o Senhor está nos falando que devemos participar da árvore da vida indo diretamente a Ele. Em I Tm 2:5 o Senhor diz: “porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.”
“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas”. O Senhor fala da mesma maneira a todas sete igrejas, mostrando que não somente a igreja em Éfeso necessita ouvir, mas todas as igrejas devem ouvir.
“ao vencedor dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus”. A intenção original de Deus para o homem é que ele coma o fruto da árvore da vida. Deus nos diz agora que devemos ir diretamente a Ele e agir de acordo com Sua intenção original. Se você está disposto a seguir a intenção inicial de Deus, coma o fruto da árvore da vida, que é a Sua Palavra.
Apenas os vencedores podem comer. Todo aquele que retornar a intenção e exigência original de Deus, é um vencedor.
Igreja em Esmirna
Leituras: Ap 2 : 8-11 – Mt 13 24 –30
Em Apocalipse a igreja em Esmirna é historicamente a continuação da igreja em Éfeso. Essa igreja corresponde ao final da igreja primitiva no fim do 1º século até o início do 4º século. Depois que Éfeso foi restaurada tornou-se uma igreja desejada.
Na história da igreja, as igrejas da era apostólica e as imediatamente após elas foram muito perseguidas. Sofrimento, é a especial característica da igreja em Esmirna: esta é a razão porque o nome da igreja aqui é Esmirna.
Esmirna vem da palavra “mirra”, que significa sofrimento, representa a igreja sob perseguição. Seu período foi caracterizado pelas perseguições e sofrimentos causados pelo Império Romano. Essas perseguições, contudo, fizeram-na crescer espiritualmente e multiplicar-se em número. Mostra também, que até a época de Esmirna a igreja guardava a Palavra, o que se tornava uma igreja plena de vida. Embora sofrendo perseguições, ela fez-se uma boa terra para Deus.
A 2ª parábola de Mateus 13, a do joio no meio do trigo, ajuda-nos a entender melhor a situação dessa igreja. O joio causa sofrimento ao trigo, pois lhe rouba a umidade do solo e a luz do sol, mas ao mesmo tempo, quanto mais o trigo amadurece mais solto fica do solo, enquanto o joio, fica cada vez mais ligado a terra/mundo. Com isso, o trigo é forçado a “esticar-se” para buscar a luz. Com tal esforço, ele cresce e amadurece. Essa é a nossa situação, quando somos submetidos a dificuldades e aflições e buscamos o Senhor. Se não existissem os problemas, possivelmente não cresceríamos adequadamente na vida cristã.
O Senhor Jesus fala de si como “o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver” Nesta carta, o Senhor revela que Seu Nome é especial e que a recompensa ao vencedor também é muito especial. O Senhor diz que o vencedor de nenhum modo sofrerá o dano da Segunda morte. Isto prova que a vida vence a morte. No dia de Pentecostes, o apóstolo diz ao povo: “ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse Ele retido por ela” (At 2:24). A morte não pôde retê-lo. Isso é ressurreição. Portanto, o princípio da ressurreição da Bíblia, torna-se muito precioso. “Estive morto mas eis que estou vivo” prova que a Vida resistiu a morte. Deus vê a igreja como um ser que pode suportar a morte. As portas do Hades estão abertas para a igreja, mas as portas do Hades não podem prevalecer contra ela, e não podem confina-la, assim, a natureza da igreja á a ressurreição.
Quão terríveis foram os sofrimentos e as perseguições sofridas pela igreja em Esmirna. Quando estudamos a história deste período, vemos os irmãos mártires sendo devorados por leões, sendo entregues aos gladiadores como espetáculos de circo montado por Roma. Muitos deles, cantavam e adoravam o Nome do Senhor enquanto eram devorados pelas feras.
“conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico)”. Embora não tenham nada do que há nesta terra, no entanto, o Senhor sabe da sua riqueza.
“não temas as cousas que tens que sofrer”. A razão pelo qual a igreja em Esmirna foi capaz de suportar as grandes perseguições, é que ela conhecia a ressurreição. Somente a ressurreição consegue tira-la da sepultura.
“E (Eu conheço) a blasfêmia dos que a si mesmo se declaram judeus, e não são” . Aqui, o Senhor não se refere aos judeus no mundo, mas, aos judeus que se misturavam na igreja e perseguiam os verdadeiros cristãos, entregando-os à morte. Relaciona-se a isto, a parábola do joio misturado ao trigo. No início na igreja, foi muito difícil até para os apóstolos compreenderem que a Lei e o judaísmo (o templo, a Lei, os sacerdotes e as promessas terrenas), já haviam sido extintos pela Cruz e alguns judeus “convertidos” perseguiam os cristãos.
Nas sete cartas há uma linha de oposição. Os nicolaítas são mencionados duas vezes: uma na igreja em Éfeso e outra em Pérgamo. Os judeus duas vezes: uma aqui, e outra em Filadélfia. Em Pérgamo vemos o ensinamento de Balaão, em Tiatira o de Jezabel. Todos estes constituem linhas de oposição.
O judaísmo é uma religião terrena (promessa de Deus a Abraão que seriam numerosos como a areia do mar). E o povo cristão é puramente espiritual (promessa de Deus a Abraão que seremos numerosos como as estrelas do céu). Os judeus entendem o templo como algo suntuoso, ouro e pedras preciosas. O Senhor nos fala que nós somos o templo do Deus vivo (Ef 2 :21 a 22 ).
Na igreja em Esmirna havia tribulação, pobreza e blasfêmia dos judeus. Mas o Senhor disse àqueles cristãos: “não temas as coisas que tens que sofrer eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre voz, para serdes postos à prova”. Não temas! Muitas vezes se apenas entendêssemos que algo é causado por Satanás, o problema já estaria solucionado pela metade.
Quando começamos a pensar que algo é causado pelos homens é que temos dificuldade. Se conseguíssemos, apenas entender que isso está sendo feito pelo inimigo, o problema seria resolvido e o nosso coração, poderia descansar diante do Senhor.
“...e tereis tribulação de dez dias” - Dez dias na Bíblia, significa um período muito breve (ver Gênesis 24:55). Quando o servo queria levar Rebeca com ele o irmão e a mãe de Rebeca pediram-lhe que ficasse com eles pelo menos dez dias. Em Daniel 1:12, Daniel e seus amigos pediram ao cozinheiro para testá-los apenas por dez dias. Portanto, o que o Senhor fala aqui tem o mesmo significado. Por um lado, isto significa que há dias certos para os nossos sofrimentos e nossos dias de sofrimentos são contados pelo Senhor. Após estes dias, seremos libertados pelo Senhor. Não importa por quais provações passemos diante de Deus, elas não durarão muito.
“sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida” . Fiel até a morte é uma questão de tempo e atitude.
O Senhor insiste que a vida de todos aqueles que O servem pertence a Ele. Esta é a razão que você deve ser fiel até a morte. Todo aquele que é comprado pelo sangue do Senhor, deve ser fiel até a morte. “dar-te-ei a coroa da vida” – a coroa é uma recompensa a nossa fidelidade ao Senhor, a vida com Ele tornar-se-á uma coroa de glória.
“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”.
A série de artigos "A Vontade do Senhor para a Sua Igreja" é uma compilação dos textos acima mencionadas por Luciano Barbezani e Celso Galleti.
Extraído dos Livros: A Ortodoxia da Igreja - Watchman Nee, escritos de Willian Kely, John Nelson Darby dentre outros.