A Parábola das Ovelhas e dos Bodes (Mt 25:31-46)
Vários comentaristas, por não considerarem essa passagem uma narrativa, deixam de registrá-la em sua relação de parábolas. Todavia achamos que deveria ser aceita por sua descrição dos mesmos acontecimentos e de sua linguagem figurada que a ligam à Parábola do pastor. Ao mesmo tempo que temos nela uma descrição de uma cena real, a Linguagem usada é parabólica: “Como o pastor aparta dos bodes as ovelhas".
Entre os muitos julgamentos da Bíblia, há três que são geralmente confundidos uns com os outros e são distintos:
1. O Trono do Julgamento de Cristo , que acontecerá quando o Senhor voltar nos ares. Esse julgamento está relacionado com a igreja verdadeira - somente os salvos estarão presentes para a revisão e recompensa pelo serviço fiel prestado (Rm 14:10; 2Co 5:10).
2. O Julgamento das Nações Viventes (a parábola em estudo), que acontecerá quando Cristo retornar à terra e assumir o seu reino. Nessa sessão do tribunal todas as nações justas e injustas serão congregadas, quando serão anunciadas as recompensas e as rejeições.
3. O Julgamento do Grande Trono Branco que acontecerá no fim dos tempos, após o reino milenar de Cristo e a última rebelião de Satanás (Ap 20:11). Todas as almas perdidas serão convocadas a esse terrível julgamento, para ouvir a promulgação da sentença que lhes caberá.
Assim se verá que a Bíblia não conhece um julgamento genérico no qual todos os salvos e perdidos comparecerão, e quando o Juiz os separará, colocando uns à direita e outros à esquerda. Se participarmos do primeiro julgamento, não seremos julgados no segundo nem no terceiro. Se tivermos perdido o primeiro, deveremos comparecer ao segundo, se estivermos vivos quando Cristo voltar à terra; mas com toda certeza os que comparecerem ao terceiro ouvirão a sua condenação ser ratificada. Nosso julgamento vindouro depende de nosso relacionamento com Jesus Cristo. Se estivermos nele, jamais ouviremos a frase "Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade!" (Mt 7:23). O julgamento de todas as nações, que vamos agora examinar, é quase incrível em sua consolação e cruel em seus terrores. O vocábulo mas , que está no texto original, distingue e contrasta a cena que vem a seguir com os que o precederam.
I. O JUIZ. Nosso bendito Senhor será o augusto Juiz nesse grande julgamento internacional. Ele esteve assentado no trono de sua glória desde sua ascensão, "à destra da majestade nas alturas" (Hb 1:3), no aguardo, até que os seus inimigos fossem colocados como estrado de seus pés (Sl 110). Então ele descerá como o verdadeiro Salomão, em toda a sua glória, para julgar a terra e estabelecer o seu reinado milenar em justiça e paz. Pense sobre os títulos costumeiros e parabólicos que ele usa para designar a si mesmo. Em primeiro lugar, quando ele aparecer, será como:
Filho do Homem. Ele designou-se assim por umas 80 vezes, e esse título, que traz em si uma conotação familiar, tem também uma conotação racial, no sentido de ser ele homem, pois representa muito bem a raça humana (1Co 15:45-47). Era como "o Filho do homem" que esteve em pé diante de Pilatos, para ser condenado. Aqui, como o mesmo Filho do homem, que foi julgado e morto, ele surge para emitir julgamento sobre todos os homens viventes (esse não é um julgamento dos "vivos e mortos". Não há ressurreição alguma associada a esse julgamento). Esse título expressivo fala de sua humanidade, e de sua degradação, quando os homens o trataram como "verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo" (Sl 22:6). Mas o Filho do homem, que uma vez foi rejeitado, surgirá em poder e grande glória rodeado das milícias angelicais, para ministrar o justo julgamento sobre todos os homens.
Como "o Filho do homem", toda a autoridade de julgar lhe foi atribuída por seu Pai. "O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo". Deus lhe deu "autoridade para julgar, porque é o Filho do homem " (Jo 5:22-27). Nessa narrativa, o seu justo juízo (Jo 5:30) está relacionado aos que se encontrarem nos túmulos, os quais ouvirão a sua voz. Mas o julgamento na parábola que temos aqui é o das nações viventes. Notamos que o verbo, no tempo futuro não é empregado aqui. Jesus não disse que o Pai "dará" mas que "deu". Ao assumir a vestidura de ser humano, Jesus foi investido do poder para julgar, e os homens estarão conscientes de que serão julgados por Cristo, por tudo o que ele será em si mesmo, e graças às suas palavras, obras e tudo o que nele será visto. Em seu ministério terreno havia algo que tornou aqueles que estava a sua volta conscientes de seus pecados. E então acontecia uma constante divisão entre os homens, por sua causa. Falamos do último julgamento; mas, para o primeiro , nos voltamos para a sua vida entre os homens, e descobrimos que o seu último julgamento não é nada mais que a consumação do primeiro .
Cristo já havia dito definitivamente aos seus discípulos que, como "o Filho do homem", ele viria "na glória de seu Pai, com os seus anjos como "o Filho do homem", assentar-se-ia "no trono de sua glória" Mt 16:27; 19:28). O Julgamento das Ovelhas e dos Bodes será a abertura do reino milenar. Esse será o dia "determinado" para ele, como o homem, julgar o mundo com justiça e eqüidade (At 17:31).
Pastor. Ao exercer o seu conhecimento e discernimento nessa função Cristo separará as ovelhas dentre os bodes. Temos em Davi a ilustração de um pastor que reina e, contudo, pastoreia ao mesmo tempo. É o "pastor supremo" que Jesus está para surgir, e será dessa maneira que ele ministrará nesse inquérito judicial. Enquanto esteve na terra viu os homens como "ovelhas pastor"; mas quando retornar como Pastor, as suas ovelhas serão cuidadas eternamente. Porque num rebanho sírio há muitos pontos de semelhança entre as ovelhas e os bodes, são necessários os olhos bem treinados do pastor, para distinguir uns outros. O Pastor divino, cujos olhos estão "em todo lugar, contemplando os maus e os bons" (Pv 15:3), não cometerá erro algum quando vier para julgar os feitos das nações. Olhamos para a aparência externa e, com demasiada freqüência, confundimos a veste de piedade com o a piedade realmente é, e a fé professa com a verdadeira lealdade; mas ele, que sempre olha para o coração, jamais será enganado.
Rei . Por duas vezes seguidas Jesus referiu a si mesmo como "Rei". As pessoas julgadas o chamam de “Senhor". Anteriormente, de forma velada e parabólica, Jesus falara de si mesmo como o verdadeiro "Rei", e essa foi a primeira e única vez que Ele assumiu o título de forma direta. É maravilhoso o fato de que três dias antes de ser crucificado pelos homens como criminoso, ele fala de si mesmo como o "Rei" de todos os homens, o qual seria julgado, para decidir o destino eterno das nações. Ao dirigir-se aos herdeiros de seu reino, Jesus lhes assegurou que voltaria em toda a sua majestade real. Como Rei, Cristo tem de ter um trono: por isso ele fala do "trono de sua glória", i.e., o trono de sua autoridade judicial como Rei. Ele será visto em sua própria glória, que é a sua glória pessoal, moral e eterna.
Então o governo estará sobre os seus ombros reais (Is 9:6). Como Rei, ele terá o direito e o poder para dizer às “ovelhas" que herdem o reino, que já. está preparado para elas desde a eternidade.
De alguma forma é significativo que esse Juiz seja mencionado como o -"Rei dos séculos" (Ap 15:3); e as autoridades competentes afirmam ser a expressão correta, e não o "Rei dos santos". Ele é apresentado como "Rei de Israel, Rei da terra, Rei dos reis, e aqui o 'Rei dos séculos'; mas nunca como o 'Rei dos santos', embora, no verdadeiro sentido, ele seja nosso Rei, tendo em vista que fomos transportados para o seu reino" (Cl 1). Na presente dispensação, os seus santos têm o poder de governar, mas a autoridade monárquica, que lhes foi conferida (1Co 4:8; 6:2,3; Ap 1:6), está determinada para o futuro. Reinaremos com ele (2Tm 2:12).
As nações estão para se submeter ao seu julgamento e revelarão quanto é verdadeiro o seu título de "Rei das nações" (Jr 10:7). Ao exercer o seu poder como tal, quebrará a intransigência dos povos, e todos serão forçados a se prostrar perante ele e a reconhecer a sua suprema soberania.
Desviemos agora a nossa atenção de seus múltiplos títulos e de seu trono, e pensemos em sua comitiva. As miríades de anjos que enchem o seu templo o acompanharão à terra -"todos os santos anjos com ele". Todos os anjos vão servi-lo, quando ele julgar todas as nações (Dt 33:2; Dn 7:9,10; Jd 14; Hb 1:6; 1Pe 3:22; Ap 19:11-16). Todo o céu estará presente, observando, enquanto toda a terra permanece em pé para ser julgada. Os anjos que estarão presentes, como testemunhas do julgamento justo do Senhor, também executarão os seus justos decretos. O escritor aos Hebreus fala dos "muitos milhares de anjos" (Hb 12:22,23).
Dá a impressão também que a Igreja, a Noiva comprada pelo sangue de Cristo, juntar-se-á aos anjos, embora não apareça nessa parábola. Como os redimidos glorificados compartilharão o seu reino com ele, podemos então concluir, com certeza, que estarão presentes com os anjos, para contemplarem o seu Redentor aplicar com justiça o julgamento das nações e assumir o seu poder para reinar como o Rei dos reis.
II. O JULGAMENTO. A cena desse julgamento é a terra, particularmente a região conhecida como a Terra Santa , porque, quando Cristo voltar, os seus pés estarão sobre o monte das Oliveiras (Zc 14:4); mas os que serão julgados não terão identidade nacional: "Perante ele serão reunidas todas as nações, i.e., todos os gentios". Quando o plural é usado na Bíblia, ele representa todos os povos ou nações gentílicas do mundo, em contraste com a nação judaica (Rm 15:11,12; Ef 2:11). Joel refere-se a esse grande ajuntamento das nações para serem julgadas -"Ali me assentarei para julgar todas as nações em redor" (Jl3:1,2,11,12; Zc 14:2).
Dá a impressão que as nações dessa época não serão tão populosas como as de hoje e, quando o Rei, o Juiz de Deus, retomar para intervir e decidir soberanamente sobre os assuntos internacionais, estarão em condições desesperadoras. Os profetas referem-se às desolações e às mortes mundiais (Sl 46:6-9; Ezequiel 38; 39). João mostra como a vasta população mundial será reduzida a um número mínimo, em conseqüência das intervenções divinas (Ap 6:8; 8:9,11; 9:15,18). De Israel propriamente dito restará naquele tempo nada mais do que "um pequeno remanescente" (Is 1:9; Zc 13:8,9). As nações ovelhas, consideradas justas, entrarão para o milênio com o seu Rei. Esse ajuntamento de nações, então, será a multidão da terra que estará ao lado das miríades celestiais ao redor do Juiz: “Vi o Senhor assentado sobre o seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua mão direita e à sua esquerda” (1Rs 22:19).
É mais do que um o número dos comentaristas para quem todas as nações reunidas ao redor do Trono da Glória não significa necessariamente que a população do mundo todo estará concentrada num só ponto. "Pode-se entender que o Rei convocará todas as nações para que se reúnam, possivelmente fazendo essa convocação através de seus representantes [...] a fim de eliminar as fronteiras existentes". Nações, como tal, não visitam os doentes, os prisioneiros, mas, sim, os seus representantes. Tomemos como exemplo a Organização das Nações Unidas com sede em Nova Iorque. Isso não quer dizer que todos os povos, que constituem todas as nações do mundo, estejam em Nova Iorque. Apesar de suas dimensões enormes essa importante cidade jamais poderia conter os bilhões de almas que as nações representam. Os representantes de quase todas as nações do mundo estão concentrados na ONU, para tratarem de assuntos nacionais e internacionais. Um governante de um país pode exercer influência para o bem ou o mal sobre o seu povo. Junto com os seus conselheiros, ele conduz a vida de sua nação e é responsável pelo que ela se torna quanto ao caráter. Portanto, parece que o julgamento das nações viventes será como se fossem colocadas à parte e julgadas nas pessoas de seus governantes e representantes.
Vem agora a separação das nações, em dois grupos, pelo Pastor Juiz. As nações ovelhas serão colocadas à sua direita, a posição de aprovação e honra; as nações bode estarão localizadas à sua esquerda, a posição de vergonha e desonra.
Nessa ocasião, como agora, há somente duas categorias e todos os homens pertencerão a uma delas. O julgamento é segundo o caráter, e a metáfora das Ovelhas e Bodes é a imagem dos dois tipos de caráter e das duas naturezas que diferem entre si.
As ovelhas são consideradas emblema de ternura, simplicidade, inocência, paciência e utilidade. Os povos escolhidos, como nações ovelhas, serão os que foram benevolentes e capazes de uma bondade genuína que deles fluía de maneira natural e espontânea. Por serem essencialmente bondosas e exteriormente atuantes, em razão da sua fé interior, essas pessoas são então recompensadas pelo Rei.
Os bodes são, por natureza briguentos, sensuais e demasiadamente malcheirosos; portanto, considerados símbolo de homens desordeiros, profanos e impuros que são essencialmente egoístas, e o egoísmo flui deles de maneira natural. Representarão as nações entregues às suas próprias paixões e lascívia e que, conseqüentemente, não conseguem perceber as necessidades dos outros. Não há compaixão em seus corações; por isso, não sentem qualquer razão para atender às necessidades dos outros.
Nosso Senhor menciona outra categoria de pessoas, e a maneira que foram tratadas decide o respectivo futuro dos dois grupos acima. Essa outra categoria são:
Meus irmãos . Quem Jesus tinha em mente quando chamou essas pessoas irmãos? Será que se referia à nação judaica da qual ele fazia parte? Vários escritores afirmam que esses são os crentes remanescentes de Israel, os quais anunciarão o evangelho do reino como testemunho a todas as nações durante o último período terrível e crucial da grande tribulação (Mq 5:3; Mt 24:14). Esta será uma época de dura prova para o remanescente judeu e, por compartilhar de suas posses e cuidar daqueles que foram despojados pelo Anticristo, eles serão honrados com o nome de irmãos de Cristo. Mas certamente essa designação é mais abrangente que isso!
O Senhor já dissera que todos os que obedecessem à sua vontade e à sua palavra seriam os seus irmãos, fossem eles judeus ou gentios (Mt 12:46-49). Ele também disse: "Um só é o vosso Mestre, e vós todos sois irmãos" (Mt 23:8). Quando ele proferiu essa parábola, visava toda essa dispensação que culminará com o seu retorno à terra, e tinha em mente os seus (judeus e gentios regenerados), da perspectiva da responsabilidade deles como os seus irmãos espirituais que, por ele agir através deles, portar-se-iam conforme a vontade dele.
Qual será o critério do julgamento das nações? O que determinará a divisão entre elas, pois, de um lado, estarão as ovelhas, os justos, que entrarão para a vida milenar; e, do outro, os bodes, os ímpios, que serão julgados e mortos. Campbell Morgan acredita que a pergunta de Pilatos deve ser feita, de um ponto de vista nacional: “Que farei então com Jesus?” Essa deve ser a pergunta às nações: O que estão fazendo com Jesus? O que estão fazendo com a sua mensagem? O que estão fazendo com os seus mensageiros? O que estão fazendo com todas as forças espirituais e poderes morais que ele liberou, e devem operar através de seu povo, nessa dispensação? Será com esse critério que o seu julgamento será emitido a favor ou contra elas".
O princípio que nosso Senhor destaca é que ele virá para "colher de seu reino tudo o que causa pecado, e todos os que cometem iniqüidade", e inaugurar a nova dispensação (milênio) em que os justos brilharão como o Sol no reino de seu Pai. Que sentença terrível é decretada para os que abandonaram a Cristo! O "fogo eterno" foi preparado para o diabo e os anjos que ele seduziu, porque foram os primeiros a transgredir. Porém, após o terceiro julgamento, os injustos compartilharão da mesma sentença; porque, junto com Satanás e suas hostes, representam um único caráter profano. Os que se apartaram de Cristo foram egoístas e opostos a ele durante a vida. Os justos não perceberam quanto agiram bem, e os ímpios não perceberam quanto atuaram mal. Os seus pecados contra os irmãos foram praticados contra o próprio Mestre (At 9:4), e entrarão em desespero, ao apartarem-se de Cristo para uma eternidade de agonia. E um sentimento profundo quando percebemos que as últimas palavras de seu ministério público antes da cruz foram: "E irão estes para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25:46).
Ellicot diz que "a profundidade das palavras, no encerramento dessa grande profecia de julgamento, tende obviamente à conclusão de que o Senhor intencionava que os seus discípulos, e através deles, o seu povo em todas as épocas permanecessem atentos à divisão que estava envolvida, no próprio conceito de julgamento, como algo que não deveria ser mudado. Os homens deverão colher o que plantaram, e as conseqüências das más obras ou da omissão na prática das boas obras, deverão, em cada caso, produzir a sua recompensa, até onde podemos ver, sem qualquer prescrição de limite".
O que acontece, após as palavras de nosso Senhor no monte das Oliveiras, é comovente! "Tendo Jesus terminado de dizer todas essas coisas, disse aos discípulos: Sabeis que daqui a dois dias é a Páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado" (Mt 26:1,2). Foi algo maravilhoso, como ele, calma e dignamente, desceu do "trono de sua glória" e encaminhou-se ao Getsêmani e ao Calvário, para ali consumar a obra que o seu Pai lhe dera para realizar. Ele trocou a alegria que estava perante ele pela cruz que suportou heroicamente. Durante aqueles dias de angústia e vergonha ele deu as costas para a glória e majestade do reino que estava para se estabelecer, à qual aludira no monte das Oliveiras, e saiu para padecer uma morte terrível, para que fôssemos salvos. "Aleluia Que grande Salvador!"
Extraído do livro – Todas as Parábolas da Bíblia – Editora Vida