Quem conhece Ama

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“Lembrai-vos dos encarcerados como se preso com eles; dos que sofrem maus tratos, como se, com efeito,vós mesmos em pessoa fosseis os maltratados” (Hb 13.3).

Pink Floyd
foi um grupo que fez muito sucesso nos anos 80. Seu líder, Roger Waters sempre foi conhecido pelo seu temperamento forte e por suas “loucuras”. O filme “The Wall”, produzido por ele é cheio de imagens psicodélicas, angustiantes, e claramente rodado sob pesadas drogas alucinógenas. Até agora, era essa a imagem que eu tinha dele. Porém, nesses dias vim a conhecer um pouco de sua história. Nasceu na Inglaterra em meio à 2ª Guerra Mundial, filho de um soldado que não o viu nascer, enquanto servia na Itália junto ao exército inglês. Para escapar dos bombardeios alemães sobre Londres, sua mãe enviou o filho para um lugar seguro no interior onde permaneceu com outras crianças até o final da guerra.

Alguns anos depois, quando fogos e festas anunciavam o fim dos combates, os pais foram buscar seus filhos naquele lugar. Aquele garoto viu seus amigos um a um serem levados, menos ele. Seu pai não veio, e pela primeira vez teve a clara consciência de que perdera o pai sem nunca tê-lo conhecido. Sentiu-se abandonado e sozinho, e esse passou a ser um tema obsessivo em suas canções. Waters tem passado a vida procurando o pai ausente num mundo frio e inóspito.

Essa leitura que fiz me aproximou dele, mesmo sem conhecê-lo. Quando nos aproximamos das pessoas, de seus dramas e de suas histórias, nossa visão muda. Identificamos-nos com elas. Descobrimos nelas companheiros de viagem. Descobrimos também que se trata de garotos e garotas assustados como nós, buscando um sentido no mundo, convivendo com a nostalgia de um Pai ausente.

Há alguns dias recebi um telefonema do hospital onde prestamos capelania. Queriam minha presença urgente para falar com um paciente que estava muito revoltado e descontrolado. Corri para lá, e quando entrei  no quarto percebi alguém de maquiagem forte e unhas pintadas. Era um travesti. Apresentei-me, estendi-lhe a mão, perguntei seu nome, e disse que estava ali para ouvi-lo e ajudá-lo. Após uma hora inteira de conversa ele havia se acalmado e eu já conhecia um pouco da vida do Edson (nome fictício), de sua família, seus temores e sonhos, seu desvio da fé, as portas que lhe foram fechadas... já não via mais alguém travestido do sexo oposto, porém um ser humano digno, embora fragilizado, alguém como qualquer outro buscando encontrar o centro do seu ser.

Quando nos aproximamos do outro em amor, desaparece o que nos causava espanto, raiva, ódio, perplexidade, para dar lugar à pessoa. Não é justamente isso que Jesus fez em todo o seu ministério?  Ao jovem rico que só pensava em sua fortuna,  Jesus “fitando-o, o amou” (Mc 10.21). Diante do Mestre já não era mais uma “samaritana”, nem uma “mulher” junto ao poço, mas uma pessoa que ele conhecia sua história e, a despeito de seus erros, a amou.

Vivemos num mundo cercado de muros que nós mesmos construímos. Jesus Cristo veio para quebrar as paredes de separação para nos aproximar uns dos outros. Cristãos deveriam também parar de erigir muros para construir pontes. O Evangelho nos desafia: se amais os seus pares, seus familiares, os que lhe são agradáveis, que recompensas tendes? Aliás, não precisa ser cristão para amar os seus iguais.

Permanecer junto a quem nos é igual e fechar-se num grupo, num partido – seja religioso, político ou étnico, é o caminho mais fácil para desenvolver na alma um sentimento de oposição, de medo, e é o estopim para um mecanismo de defesa chamado “projeção”, que nada mais é que jogar sobre o outro todas as mazelas indesejadas ou rejeitadas – mas não admitidas – que estão presentes em nós.

Palestinos e judeus que vivem separados por um muro, odeiam-se mutuamente. Árabes e judeus vivendo em Jerusalém ou qualquer outra cidade do mundo, quando se conhecem,  vivem amistosamente sem animosidades.

A intolerância diante do pecador é uma das posturas mais inadequadas que um cristão pode ter. Igreja que não ama ao pecador abandonou sua principal missão. Não se trata de condescender com o erro ou pecado, mas de colocar-se ao lado e dizer: “sei como você se sente, porque conheço também meus pecados e é justamente por causa deles que estou aqui; por isso estarei ao seu lado se precisar de mim”. – “Mas pastor, Jesus disse à pecadora para ela ir e não pecar mais”. É verdade, só que isso é interpretado de duas formas: para “nós” é um tratamento a longo prazo, onde Deus vai nos tratando e curando ao longo da vida. Para o “outro” é exigido que ele obedeça imediatamente, mesmo quando ele não tem forças para isso.

Aproximar-se das pessoas, ouvir suas histórias, desenvolver empatia por elas, e colocar-se em humildade nas mesma condições, permite que olhemos o mundo com os seus olhos. Esta é a postura que Deus espera de nós! “Lembrai-vos dos encarcerados como se preso com eles; dos que sofrem maus tratos, como se, com efeito, vós mesmos em pessoa fosseis os maltratados” (Hb 13.3).

Talvez nosso maior desafio seja o de conhecer o outro. Enquanto são desconhecidos, eles nos assustam e são alvo de nosso julgamento. Somos capazes de amar somente quando o distante se faz próximo.

Olhei ao longe e vi um animal caído na estrada. Cheguei mais perto e vi que era um ser humano. Abaixei-me e reconheci o meu irmão.

Daniel Rocha, pastor
dadaro@uol.com.br


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