A Santidade de Deus

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'Quem te não temerá, ó Senhor e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo...' (Apocalipse 15:4). Somente Ele é independente, infinita e imutavelmente santo. Muitas vezes Ele é intitulado 'O Santo' nas Escrituras. Sim, porque se acha nEle a soma total de todas as excelências morais, Ele é pureza absoluta, que nem mesmo a sombra do pecado mancha. '...Deus é luz...' (1 João 1:5). A santidade é a excelência propriamente dita da natureza divina: o grande Deus é '... glorificado em santidade...” (Êxodo 15:11). Daí lermos: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a vexação não podes contemplar...' (Habacuque 1:15). Como o poder de Deus é o oposto da fraqueza inata da criatura, como a Sua sabedoria está em contraste com o menor defeito de entendimento ou com a menor insensatez, assim a Sua santidade é a própria antítese de toda mancha ou corrupção moral. No passado Deus designou cantores em Israel para 'que louvassem a Majestade santa', ou, na versão utilizada pelo autor, 'que louvassem a beleza da santidade' (2 Crônicas 20:21). 'O poder á a mão ou o braço de, Jesus, a  onisciência os Seus olhos, a misericórdia as Suas entranhas, a eternidade a Sua duração, mas a santidade é a Sua beleza' (S. Charnock). É isto Que, acima de tudo. torna-O amorável aos que foram libertos do domínio do pecador.

Grande ênfase é dada a esta perfeição de Deus. 'Deus é com mais freqüência intitulado Santo do que Onipotente, e é mais exposto por esta parte da Sua dignidade do que por qualquer outra. É fixada ao Seu nome como um (epitéto) mais do que qualquer outra. Você jamais o vê expresso, 'Seu poderoso nome' ou 'Seu sábio nome', mas Seu grande nome e, acima de tudo, Seu santo nome. Este é o maior título de honra: neste último transparecem a majestade e a venerabilidade do Seu nome (S. Charnock). Como nenhuma outra, esta perfeição é celebrada diante do trono do céu, bradando os serafins: '... Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos...' (Isaías 6:3), Deus mesmo coloca em distinção esta perfeição: 'Uma vez jurei por minha santidade que não mentirei a Davi'  (Salmo 89:35). Deus jura por Sua 'santidade' porque esta é uma expressão do Seu ser, expressão mais completa que qualquer outra coisa. Eis porque somos exortados: 'Cantai ao Senhor, vós que sois seus santos, e celebrai a memória da sua santidade' (Salmo 30:4). 'Pode-se dizer que este atributo é transcendental e que, por assim dizer, permeia os demais e lhes dá brilho. É o atributo dos atributos' (J. Howe, 1670). Assim, lemos sobre '... a formosura do Senhor...' (Salmo 27:4), que não é outra que '...  a beleza da santidade.. .' (Salmo  110:3),

'Visto que esta excelência parece se colocar acima de todas as outras perfeições de Deus, assim ela constitui a glória destas; como é a glória da Deidade, assim é a glória de cada uma das perfeições da Deidade; como o poder de Deus é a energia das Suas perfeições, a Sua santidade é a beleza delas: como todas seriam fracas sem a onipotência divina para sustentá-las, seriam todas desgraciosas sem a santidade para adorná-las. Se esta se maculasse, todas as demais perderiam a sua honra; seria como se o sol perdesse a sua luz — no mesmo instante perderia seu calor seu poder, sua virtude geradora e vivificante. Como no cristão a sinceridade é o brilho de todas as graças, em Deus a pureza é o esplendor de todos os Seus atributos, Sua justiça é santa. Sua sabedoria é santa. Seu braço poderoso é um 'braço santo' (Salmo 98:1), Sua verdade ou palavra é uma 'santa palavra' (Salmo 105:42). Seu nome, que expressa todos os Seus atributos juntos, é 'santo'  (Salmo  103:1)' (S. Charnock).

A santidade de Deus se manifesta em Suas obras. 'Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras' (Salmo 145:17). Nada senão o que é excelente pode proceder dEle. A santidade é o padrão de todas as Suas ações. No princípio Ele declarou que tudo o que tinha feito 'era muito bom' (Gênesis 1:31), e não poderia ter feito o que fez se nisso houvesse algo imperfeito ou impuro. O homem foi feito 'reto' (Eclesiastes 7:29), à imagem e semelhança do seu Criador. Os anjos que caíram foram criados santos, pois se nos diz que '...não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação...' (Judas 6). Sobre Satanás está escrito: 'Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti' (Ezequiel 28:15).

A santidade de Deus se manifesta em Sua lei. Essa lei proíbe o pecado em todas as suas variantes - nas suas modalidades mais refinadas, e nas mais grosseiras, os intentos da mente, como a contaminação do corpo, o desejo secreto como o ato abertamente praticado. Pelo que lemos: '...a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom' (Romanos 7:12). Sim, '...o mandamento do Senhor é puro, e alumia os olhos. O temor do Senhor é limpo e permanece eternamente, os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente' (Salmos 19:8-9).

A santidade de Deus se manifesta na cruz. De maneira espantosa, e, contudo, a mais solene, a expiação demonstra a santidade infinita de Deus e Seu ódio ao pecado. Quão odioso para Deus há de ser o pecado, a ponto de castigá-lo até ao limite extremo do seu merecimento, quando o imputou ao Seu Filho! 'Nem todos os vasos do juízo já derramados ou por derramar sobre o mundo ímpio, nem a chama ardente da consciência do pecador, nem a sentença irrevogável pronunciada contra os demônios rebeldes, nem o gemido das criaturas condenadas demonstram o ódio de Deus ao pecado, como o demonstra a ira de Deus derramada sobre o Seu Filho. Nunca a santidade divina parece mais bela e mais amorável do que na hora em que o semblante do Salvador ficou por demais desfigurado em meio aos estertores da Sua agonia mortal. Ele próprio o reconhece no Salmo 22. Quando o Senhor afastou dEle o Seu risonho rosto e Lhe fincou no coração aguda faca, provocando Seu terrível brado, 'Deus meu, Deu meu, por que me abandonaste?' (vers. 1). Ele adora esta perfeição — 'Tu és santo' (vers. 3) S. Charnock.

Desde que Deus é santo, Ele odeia todo e qualquer pecado. Ele ama tudo quanto está em conformidade com as Suas leis, e detesta tudo que lhes é contrário. Sua Palavra declara expressamente: '...o perverso é abominação para o Senhor...” (Provérbios 3:32). E ainda: 'Abomináveis são para o Senhor os pensamentos do mau...' (Provérbios 15:26). Segue-se, pois, que Ele necessariamente tem que punir o pecado. Do mesmo modo como o pecado requer a punição por Deus, exige também o Seu ódio. Deus perdoa muitas vezes o pecador; nunca, porém, perdoa o pecado; e o pecador só é perdoado com base no fato de que Outro levou sobre Si o castigo que lhe era devido; sim, pois; “... sem derramamento de sangue não há remissão (Hebreus 9:22). Razão pela qual se nos diz: '...o Senhor toma vingança contra os seus adversários, e guarda a ira contra os seus inimigos' (Naum 1:2). Por um pecado Deus expulsou do Éden os nossos primeiros pais. Por um pecado toda a posteridade de Cão caiu sob maldição que permanece sobre ela até o dia de hoje. Por um pecado Moisés foi impedido de entrar em Canaã, o servo de Eliseu foi castigado com lepra, Ananias e Safira foram eliminados da terra dos viventes.

Temos aqui prova da divina inspiração das Escrituras. Os não regenerados não crêem realmente na santidade de Deus. O conceito que eles têm do caráter de Deus é inteiramente unilateral. Eles esperam de coração que a Sua misericórdia sobrepuje tudo mais. '... pensavas que era como tu...' (Salmo 50:21) é a acusação que Deus lhes faz. Eles pensam somente num 'deus' segundo o padrão dos seus corações maus. Daí permanecerem eles no caminho de uma exacerbada insensatez. A santidade atribuída pelas Escrituras à natureza e ao caráter de Deus é tal, que demonstra com clareza a sua origem super-humana. O caráter atribuído aos deuses dos antigos e do paganismo moderno é justamente o inverso daquela imaculada pureza que pertence ao Deus verdadeiro. Um Deus inefavelmente santo, que tem a mais intensa aversão a todo pecado, jamais foi inventado por um dos decaídos descendentes de Adão. O fato é que nada torna mais manifesta a terrível depravação do coração do homem e a sua inimizade contra o Deus vivo, do que expor diante dele Aquele Ser único que é infinita e imutavelmente santo. A idéia que o homem faz de pecado limita-se praticamente ao que o mundo chama de 'crime'. Tudo que fica aquém disso pode ser abrandado como 'defeitos', 'enganos', 'fraquezas' etc. E mesmo quando se admite a existência do pecado apresentam-se escusas e atenuantes.

'O deus' que a imensa maioria dos cristãos professos 'ama' é visto como alguém muito parecido com um ancião indulgente, que pessoalmente não tem prazer nas loucuras, mas tolerantemente fecha os olhos para as 'indiscrições' da mocidade. Mas a Palavra diz: “... aborreces a todos os que praticam a maldade” (Salmo 5:5). E mais: 'Deus é um juiz justo, um Deus que se ira todos os dias' (Salmo 7:11). Mas os homens se recusam a dar crédito a este Deus e rangem os dentes quando o Seu ódio ao pecado lhes é enfática e fielmente apresentado. Não, como o homem preso ao pecado jamais teria criado o lago de fogo no qual seria atormentado para todo o sempre, muito menos haveria a probabilidade dele inventar um Deus santo.

Sendo que Deus é santo, a aceitação da parte dEle, com base nas ações das criaturas, é completamente impossível. Uma criatura caída pode mais facilmente criar um mundo, do que produzir algo capaz de receber aprovação dAquele que é pureza infinita. Podem as trevas morar com a luz? Pode o Ser imaculado sentir prazer com o 'trapo da imundícia'? (Isaías 64:6) O melhor que o homem pecador pode produzir vem manchado. Uma árvore contaminada não pode dar bom fruto. Deus se negaria a Si próprio, envileceria as Suas perfeições, se tivesse por justo e santo aquilo que não o é em si mesmo; e nada é santo, desde que tenha a mínima mancha do que seja contrário à natureza de Deus. Mas, bendito seja o Seu nome, pois, aquilo que a Sua santidade exigiu, a Sua graça supriu em Cristo Jesus, nosso Senhor! Todo pobre pecador que correu para Ele em busca de 'refúgio, foi e permanece aceito 'no Amado' (Efésios 1:6). Aleluia!

Posto que Deus é santo requer-se de nós que nos aproximemos dEle com a máxima reverência. 'Deus deve ser em extremo tremendo na assembléia  dos santos, e  grandemente  reverenciado por todos os que o cercam' (Salmo 89:7). Portanto, 'Exaltai ao Senhor nosso Deus, e prostrai-vos diante do escabelo de seus pés, porque ele é santo' (Salmo 99:5). Sim, 'diante do escabelo dos seus pés', na postura da mais profunda humildade, prostrai-vos. Quando Moisés  ia   aproximar-se  da  sarça   ardente,  disse  Deus: '...tira os teus sapatos de teus pés... ' (Êxodo 3:5). É preciso servi-lO 'com temor' (Salmo 2:11). A exigência que Deus fez a Israel foi: '... serei santificado naqueles que se cheguem a mim, e serei glorificado diante  de  todo o  povo...”   (Levítico 10:3). Quanto mais tomados de temor ficarmos por Sua inefável santidade, mais aceitável será o nosso acesso a Ele.

Visto que Deus é santo, devemos querer amoldar-nos a Ele. Seu mandamento é: '...sede santos, porque eu sou santo'  (1 Pedro 1:16). Não somos obrigados a ser onipotentes ou oniscientes como Deus é, mas temos  que ser santos, e isto em  toda a nossa '... maneira de viver' (1 Pedro 1:15). 'Esta é a maneira primordial de honrar a Deus. Glorificamos a Deus pelas atitudes de elevada admiração, pelas expressões eloqüentes, pelos pomposos serviços de adoração, mas não tanto como quando aspiramos a conversar com Ele com espírito livre de mácula, e a viver para Ele vivendo como Ele vive' (S. Charnock). Então, como só Deus é a origem e a fonte da santidade, busquemos zelosamente dEle a santidade; seja a nossa oração diária no sentido de que Ele nos '...santifique em tudo... '; e todo o nosso  'espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo' (I  Tessalonicenses  5:23).

Autor: Arthur W.Pink
Extraído do Livro - Atributos de Deus, Capítulo 8.


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