Existe Diferença? - As Operações Permanentes e Variáveis do Espírito Santo

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“Para que possais distinguir as coisas que diferem” (Fl 1:10, no Grego)

“Não se turbe o vosso coração.” Não foi ao mundo que nosso Senhor assim falou, mas àqueles que o Pai Lhe havia dado. Mas como não ficar perturbados em vista da Sua partida? As palavras seguintes dão a resposta: “Credes em Deus, crede também em mim... vou preparar-vos lugar... voltarei outra vez e vos tomarei para mim mesmo” (Jo 14:1-3). Jesus não poderia mais ser visto com os olhos humanos, mas seria para eles o verdadeiro objeto da fé, como Deus invisível, no Qual eles haviam crido. Embora distante, não estaria menos próximo do que quando estava com eles aqui no mundo. Embora ausente, não seria por muito tempo, pois logo Ele estaria de volta para tomá-los para que estivessem com ele mesmo. Mais na frente Ele disse: “Se amásseis o mundo, alegrar-vos-íes de que eu vos disse ‘vou para meu Pai’, porque o Pai é maior do que Eu” (v. 28). Se por causa deles mesmos não houvesse possibilidade de não ficarem tristes pelo pensamento de perdê-Lo, por amor a Ele mesmo deveriam ficar contentes, pois Aquele em quem haviam conhecido em humilhação como o Filho do Homem, estava para retornar à glória da casa do Pai. Logo depois Ele ainda declarou: “Convém-vos que eu vá, pois se Eu não for, o Consolador não virá a vós; mas se Eu for, vô-Lo enviarei” (Jo 16:7). Este era um fato surpreendente! Quão grande deve ser a benção prometida, pois, a fim de não perdê-la, seria melhor ver o ser Amado partir! A vinda do Consolador era na verdade não apenas a prova do resultado da Sua partida, mas também a condição da Sua volta (não no sentido de Jo 14:3 – ‘virei outra vez e vos tomarei para mim mesmo’; tal promessa teria um cumprimento literal’), mas no sentido espiritual do versículo 18: “Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós.” O oficio do Espírito seria o de glorificar a Cristo, encher Seu povo em toda parte com revelações crescentes do seu Senhor invisível e fazer tornar Sua presença pessoal uma bendita realidade.


O Propósito desse Estudo
O propósito principal desse estudo é mostrar a diferença que existe entre algumas das várias fases das operações do Espírito Santo, isto é, entre aquelas que são completas na doação e permanentes no caráter, por um lado, e as que são flutuantes no caráter e sujeitas a renovação ou aumento, por outro lado.

No tocante às que são dadas plenamente e de caráter permanente, sua relação é principalmente com Deus e nossa posição e possessão em Cristo; as flutuantes e sujeitas a renovação e crescimento, estão relacionadas com a experiência e deleite dos nossos privilégios. As de caráter permanente não necessitam ser renovadas, pois o pleno efeito da primeira concessão nunca é perdido; as de caráter flutuante, sendo variáveis na medida, e progressivas no caráter, carecem de constante renovação. Grande confusão tem se levantado e existe hoje na igreja professa, devido à falha em distinguir estes dois aspectos da verdade. Alguns mestres insistem muito no aspecto importante da obra do Espírito Santo em relação com a nossa posição em Cristo; outros estão quase que exclusivamente ocupados com aquilo que sem dúvida não deveria ser perdido de vista, que é o lado experimental das coisas. Os primeiros se prendem à verdade de que o Espírito já veio, que os crentes já foram batizados em um corpo e são, portanto, templo do Senhor, etc. Os outros enfatizam a necessidade de uma experiência plena de poder e benção e quando fazem isso dentro dos termos bíblicos, o resultado é sempre de ajuda. Mas quando expressões tais como “novo batismo do Espírito” são usadas, ou quando os crentes são exortados a “esperar pelo Espírito,”ou a “conseguir seu Pentecoste,” os resultados não produzem edificação. Alguns cristãos declaram não ver qualquer importância no modo como se expressam desde que o sentido seja correto no aspecto geral. Entretanto, o Espírito de Deus assim expressa através da boca de Paulo: “Conserva o modelo das sãs palavras” (II Tm 1:13).


Antes e Depois do Pentecoste
Antes de entrar no nosso assunto principal, pode ser proveitoso lembrarmos da distinção cuidadosa a ser delineada, entre as relações do Espírito Santo com o povo de Deus, antes e depois do Pentecostes. É Deus, antes e depois do Pentecostes. É verdade que certas operações são comuns em todas as Dispensações (Ver o estudo: As Sete Dispensações). O Espírito, por exemplo, contendeu com os homens de Deus tanto antes como depois do Pentecostes. Mas, falando de modo geral, aconteceu uma grande mudança em Sua relação com os crentes desde aquele dia notável. A oração de Davi no Salmo 51 “não retires de mim o Teu Santo Espírito” (v. 11) estava em harmonia com a dispensação (da Lei), pois tal fora a triste experiência de Saul. Mas agora, sempre que o Espírito vem para habitar é “para sempre” (Jo 14:17). Antes do Pentecostes, quando o Espírito não havia sido dado (Jo 7:39), era correto esperar que o Pai desse o Espírito àqueles que O pedissem (Lc 11:13). Agora o Espírito é dado “aqueles que Lhe obedecem” (At 5:32; Rm 1:5; II Ts 1:8). Embora possamos e devamos pedir para sermos fortalecidos pelo Espírito (Ef 3:16), não devemos pedir a Deus para enviar Seu Espírito, por não ser bíblico, assim como não seria bíblico pedir a Ele para enviar o Seu amado Filho para morrer pelos nossos pecados. Antes do Pentecostes o Espírito Santo realizou o propósito de Deus de várias formas, mas Ele não habitava no povo de Deus. O Senhor distingue a diferença do relacionamento do Espírito para com os apóstolos antes e depois do Pentecostes através das palavras: “O Espírito da Verdade... que habita convosco estará em vós” (Jo 14:17). Antes do Pentecoste o Espírito “repousou sobre eles” (Nm 11:25), isto é, sobre os setenta anciãos e veio também sobre Sansão e Davi (Jz 14:6, 19; I Sm 16:13). No Dia de Pentecostes, “o Consolador, o Espírito, o Santo” (Jo 14:26), desceu para fazer dos crentes o Seu Templo. Não precisamos nos deter mais neste aspecto da verdade. Embora existam operações do Espírito comuns a todas as Dispensações, nenhum cristão inteligente irá negar que o Pentecostes introduziu mudança vital nas relações do Espírito Santo com o povo de Deus.

A pergunta do Salmo 24 “quem subira ao monte do Senhor? Quem estará no Seu lugar santo?” encontrou a plena resposta na ascensão do Senhor Jesus Cristo. As “entradas eternas” foram levantadas para deixar entrar o Rei da glória e o Filho do Homem entrou em virtude do Seu próprio sangue e foi “imediatamente glorificado.”

Mas mesmo agora Ele não poderia Se esquecer dos Seus. Ele recebe e envia sobre eles o Consolador prometido para uní-los em um corpo a Si mesmo, e cada operação desse bendito Espírito só revela algum relacionamento novo entre eles e o Senhor deles que subiu ao céu. Dividir estas operações de modo correto é o propósito que temos diante de nós.

Algumas dessas operações do Espírito Santo pertencem a todos os cristãos de forma incondicional. Podemos chama-las de operações permanentes. Outras dependem da apropriação individual e do crescimento na graça. Podemos chama-las de operações variáveis. Elas podem ser assim resumidas:

Operações Permanentes:
Regeneração – Tt 3:5
Santificação Completa – I Pe 1:2
Batismo do Espírito: I Co 12:13
Habitação do Espírito: Jo 14:17
Testemunho do Espírito: Rm 8:16
Unção: II Co 1:21; I Jo 2:20-27
Selo: Ef 1:13; 4:30
Penhor: II 1:22; 5:5

Operações Variáveis
Renovação – Tt 3:5; Cl 3:10
Santificação Progressiva: Hb 10:14
Enchimento: At 2:4; 4:31
Suprimento do Espírito: Gl 3:3; Fl 1:19
Espírito de Adoção: Rm 8:15; Gl 4:6
Ensino: Jo 16:26, 13; I Jo 2:27
Operação Interior: Gl 5:17-22; Rm 8:26
Revestimento: Lc 24:41; Ef 3:16

Esta lista não é completa, nem afirmamos que as operações variadas aqui mencionadas são experimentadas em qualquer espécie de ordem ou que haja alguma conexão íntima necessária entre elas. Visto que o objetivo é mais fazer distinção do que tratar de modo completo com os vários aspectos da obra do Espírito, um tratamento breve de cada uma delas será suficiente.

Regeneração e Renovação
“O qual nos salvou mediante o lavar da regeneração e renovação do Espírito Santo (Tito 3:5)

I) Regeneração
“Necessário vos é nascer de novo” (Jo 3:7)
(Para entender mais a respeito do novo nascimento veja a seção – Nascer de Novo)

Para se entrar na esfera Divina é indispensável uma natureza Divina. Este novo nascimento é, portanto, essencial em todas as Dispensações, seja antes ou depois do Pentecostes. O homem nasce primeiro possuindo uma natureza caída e corrompida e depois nasce de novo do Espírito Santo. Em outras palavras, através da Palavra e pela atuação do Espírito de Deus, ele é levado a se arrepender e crer no evangelho. A natureza antiga e má não é regenerada, nem mesmo melhorada, mas o possuidor dessa natureza nasce de novo e recebe em adição à velha, uma nova natureza santa e celestial, e uma nova vida que é a própria vida do Cristo Ressurreto.

Esta regeneração não admite estágios. Um “pai” espiritualmente falando, não é mais regenerado do que um “bebê” em Cristo. Tal experiência não pode ser repetida, porque a vida comunicada não pode ser repetida, porque a vida comunicada nunca morre. A invenção eclesiástica de um “germe de vida” incutido no Batismo, que pode não vir a dar fruto, como também a doutrina não amplamente sustentada hoje, de que um filho de Deus pode se “desfazer” do seu novo nascimento, precisando ser regenerado de novo, são ambas estranhas ao ensino da Palavra de Deus. O mesmo podemos dizer do ensinamento moderno que afirma que um homem pode ser nascido de novo ainda não possuir a vida eterna (veja Jo 1:12; 12:13; I Jo 5:13). Estes mestres não explicam que espécie de vida tais semi-cristãos possuem, os quais são regenerados e ainda não receberam a vida eterna. Quando Paulo lembra Tito que eles haviam sido salvos “pelo lavar da regeneração”, o termo grego usado é o mesmo encontrado em João 13:10: “Aquele que se banhou não necessita lavar senão os pés, pois no mais está todo limpo.” A regeneração é, portanto, uma benção recebida de uma vez por todas. Ela introduz o recém-nascido na Família de Deus: “Por esta causa Ele (Jesus) não se Envergonha de lhes chamar de irmãos” (Hb 2:11).

II) Renovação
“A renovação do Espírito Santo” (Tito 3:5)

Esta renovação é contínua e deve ser um processo sem interrupção. O novo nascimento conduz o crente ao novo crescimento. “Como recém-nascidos, desejai o leite não falsificado da Palavra, para que por ele alcanceis crescimento” (I Pe 2:2). A mesma raiz da palavra renovação pode ser encontrada em três outros lugares do Novo Testamento: “E vos vestistes do novo homem, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem dAquele que o criou” (Cl 3:10).

Aqui somos ensinados que o sujeito da renovação é o “novo homem.” Os meios dessa renovação é o crescimento crescente de Cristo no crente. O modelo da renovação é a imagem de Cristo. “E não vos conformeis a este mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente, para que experimenteis...” (Rm 12:2). Vemos novamente que o lugar onde se opera essa renovação é no “homem interior.” “Mas ainda que o nosso homem exterior se esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (II Co 4:16). Aqui podemos ver que este processo de renovação está sendo realizado normalmente na vida do crente, dia a dia.

Chegamos ao entendimento de que esta operação do Espírito não é realizada de uma vez para sempre no crente, por ocasião do seu novo nascimento, mas que é um processo progressivo, naquele que anda no Espírito e cujo “prazer está na Lei do Senhor” (Sl 1:3).

III) Santificação:
Completa e Progressiva
O Par de verdades que vamos considerar agora, tem a ver com a santificação completa e a santificação progressiva.

I) Santificação Completa
Você pode achar estranho tratarmos este assunto bem no princípio, e principalmente como umas das operações permanentes do Espírito Santo. Isso não seria necessário se lembrássemos que o significado da palavra “santificar” no Novo Testamento é “separar para um objetivo especial.” A oferta colocada sobre o altar a separa, ou, santifica (Mt 23:19). O Senhor Jesus Se santificou (Jo 17:9). O marido não convertido é santificado relativamente pela esposa crente (I CO 7:14). Em nenhuma dessas passagens o verbo santificar pode significar “tornar-se santo.”

A “santificação do Espírito” poderia na verdade ter sido examinada primeiro, pois ela começa antes da regeneração e representa a ação do Espírito Santo levando uma vida eleita a Cristo: “Eleitos segundo a presciência de Deus o Pai, mediante a santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (I Pe 1:2). Aqui temos quatro coisas em sua verdadeira ordem moral:
(1) A escolha soberana do Pai;
(2) A separação dos eleitos para Deus por meio do Espírito Santo, através de vários tratamentos e conduções, obra esta que resulta na seguinte;
(3) Obediência da fé do que crê, levando-o a seguinte;
(4) Se abrigar debaixo do sangue da expiação.

Esta obra inicial pode começar na infância e se estender por muitos e muitos anos. Mas somente quando o pecador obedece ao Evangelho é que ele se torna um filho de Deus e recebe o perdão. A mesma ordem é encontrada em I Ts 2:13: “... Deus vos escolheu desde o principio para a salvação, mediante a santificação do Espírito e a fé na verdade.” Assim temos:
(1) Eleição
(2) Santificação
(3) Fé na Verdade

Isto pode ser levado em conta também para o fato de I Coríntios 6:11 colocar a santificação precedendo a justificação. Naturalmente que é totalmente antí-bíblico abrigar qualquer idéia de santidade pessoal antes da justificação, como fazem os católicos ritualistas. Mas a santificação aqui significa apenas por à parte para Deus “por meio da sua vontade” através da oferta de Jesus Cristo “uma vez por todas” (Hb 10:10). O pecador que é separado dessa forma, daí em diante é um santo; e é desse modo que as epístolas tratam e fazem referência a ele. Este lado da santificação tem a ver com nossa posição em Cristo e é absoluta. O crente é separado para o Senhor, tendo como fundamento a Sua obra, e é, portanto, salvo para sempre.

IV) Santificação Progressiva
A santifição progressiva é a realização pratica do propósito de Deus. No dia em que Faraó chamou José para governar toda a terra do Egito, ele se tornou governador, embora nada soubesse de governo ou dos procedimentos das cortes. Ele não voltou para a prisão nem para a casa de Potifar, mas se separou para cumprir um papel que Faraó lhe designou. Isso se chama santificação prática. Foi o que Paulo disse em Filipenses: “Prossigo para alcançar aquilo para o que também fui alcançado por Cristo Jesus” (3:12b). Essa obra é progressiva até o fim da vida. A oração de Paulo em I Tessalonicenses“o mesmo Deus da paz vos santifique totalmente” (5:23) nunca poderá deixar de ter aplicação na vida de qualquer um de nós. Esta obra nunca tem como objetivo ser a base da nossa paz ou o objeto da nossa contemplação, mas devemos buscar sua realização. “Se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis” (Rm 8:13). À Medida em que a Palavra de Deus é aplicada às nossas vidas pelo Espírito Santo, é que podemos experimentar o progresso cada dia “Contemplando como por espelho, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem como pelo Senhor, o Espírito” (II Co 3:18)

V) Batismo no Espírito e Plenitude do Espírito
O terceiro par de bênçãos se refere ao Batismo no Espírito e à Plenitude do Espírito.

1) Batismo no Espírito
O testemunho de João, o precursor de Cristo, foi que Jesus era o Cordeiro de Deus, o Filho de Deus e Aquele que batiza no Espírito Santo (Jo 1:29-34). São sete as referências que encontramos no Novo Testamento em relação a este batismo: quatro vezes nos Evangelhos, profeticamente, duas em Atos, historicamente (1:5; 2:16) e uma nas Epístolas, doutrinariamente (I Co 12:13): “ Em um Espírito fostes todos batizados em um Corpo.”

Alguns consideram este batismo como algo alcançado pelos cristãos mais maduros. Mas, se fosse assim, poderia o apóstolo escrito aos coríntios, como fez, chamando-os de “carnais” e “andando segundo os homens” (I Co 3:3)? A tais cristãos os mestres modernos teriam escrito assim: “união com Cristo assunto ao céu, pelo Espírito Santo enviado do céu.”

Exortações para que os crentes “busquem o seu Pentecostes” ou “recebam um novo batismo do Espírito”, conduzem ao orgulho espiritual, à confusão e à fraqueza. Todos os crentes estão em um corpo e Cristo é a cabeça deles. A fé agarra aquilo que Deus revela, e age consequentemente, de acordo com ela.

2) Plenitude do Espírito
Em Atos 2.4 lemos: “E todos ficaram cheios do Espírito Santo.” Mas no capítulo 4 vemos que muitas dessas mesmas pessoas foram cheias de novo. Cada nova necessidade exige nova plenitude e nossos corações precisam ser esvaziados em obras de fé, atos de amor ou palavras de poder, a fim de serem mantidos cheios. No Pentecostes a plenitude veio sem ser buscada; mais tarde veio como resposta à oração deles. Em Efésios 5 lemos: “E não vos embriagueis com vinho... mas enchei-vos do Espírito” (v. 18). A exortação e proibição aqui permanecem sendo válidas. Este não é um ato simples de importância permanente, mas é um costume da alma. O espaço deve ser criado para aquilo que é de Deus, através da recusa daquilo que não é de Deus. Conforme alguém já disse: “Se quisermos prosseguir, devemos desistir.”

Autor: W. Hoste