O Poder do Espírito

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A palavra Grega “dunamis”, que é usada em estreita conexão com a obra do Espírito Santo de Deus, em e através de Seu povo, significa capacidade natural, poder inerente, habilidade para realizar qualquer coisa, não meramente poder capaz de ação, mas poder em ação.

Na segunda Epístola aos Coríntios ela é usada em numerosas ocasiões. Na primeira Epístola o poder é atribuído à “mensagem da Cruz” (1:18); Cristo é declarado como “o poder de Deus” (1:24); mais tarde nos é dito que “o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (4:20). A frase “o poder do nosso Senhor Jesus” é usada no próximo capítulo (5:4); o poder é em seguida atribuído a Deus (6:14); e finalmente lemos sobre o poder relacionado com a ressurreição da morte (15:43; ver também Fp 3:10). Aqui está o poder em ação, inerente em Deus e visto em todas as obras do Seu Reino. Ele é o Todo Poderoso e o poder absoluto é um de Seus atributos.

Na segunda Epístola, Paulo fala da vida Cristã: “Porque Deus, que disse: Das trevas brilhará a luz, é quem brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não da nossa parte” (4:6-7). Todo poder é inerente a Deus e é quando Ele está guardado no coração humano que é dada capacidade para se viver como um Cristão para a Sua glória. Mais tarde, falando do obreiro Cristão, o Apóstolo menciona como parte de seu equipamento; “na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça à direita e à esquerda” (6:7). Colocar o poder entre a verdade e a justiça certamente é importante, pois estes três não podem ser separados. Depois Paulo nos dá um vislumbre de sua própria experiência e, após nos falar de seu espinho na carne e de sua fervorosa intercessão pela remoção do mesmo, escreve; “E ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que repouse sobre mim o poder de Cristo” (12:9). A lição prática que sempre deve ser aprendida sobre o poder, é que “O poder pertence a Deus” (Sl 62:11) e somente pode ser exercitado através de nós quando conhecemos como realidade algo da nossa fraqueza. Finalmente nos é dado um vislumbre deste princípio em operação pela forma na qual Mesmo o Senhor Jesus Cristo deliberadamente pôs de lado Seu próprio poder como Deus e confiou somente no poder do Pai, “Ainda que foi crucificado por fraqueza, vive contudo pelo poder de Deus” (13:4).

Retornemos agora àqueles lugares onde o poder está diretamente associado ao Espírito Santo de Deus. O evangelho de Lucas contém uma ou duas passagens interessantes. Em Lucas 1:15 é dito a Zacarias: João “será cheio do Espírito Santo”, e quando lemos mais nos é mostrada a forma particular na qual este enchimento molda seu caminho: “Ele irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias... a fim de preparar para o Senhor um povo apercebido” (1:17). Os termos da comissão de João são claros, e ele deve ser equipado com poder para esta obra, o qual só é encontrado na presença do Espírito Santo, cujo propósito é entregar sua vida para que a vontade de Deus possa ser feita. Fora do âmbito da vontade de Deus não há poder.

Quando Gabriel diz a Maria que ela seria mãe do Redentor, ela pergunta maravilhada, “Como se fará isso, uma vez que não conheço varão?” Ela recebe a certeza, “Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus” (1:34-35). O Próprio Deus se curvou para operar o poderoso milagre da Encarnação num corpo humano. A humilde prontidão para Sua vontade foi a parte de Maria, o poder foi de Deus. É sempre assim em todo Seu tratamento para conosco.

Em Lucas 4:14 lemos que quando o Senhor Jesus enfrentou e venceu o Tentador no deserto, Ele “voltou para a Galiléia no poder do Espírito; e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. No verso 36 encontramos este comentário, “E veio espanto sobre todos, e falavam entre si, perguntando uns aos outros: Que palavra é esta, pois com autoridade e poder ordena aos espíritos imundos, e eles saem?” Novamente este era o poder visto em ação e as pessoas, reconhecendo sua realidade, ficavam maravilhadas.

A referência final a ser tratada neste evangelho é Lucas 24:49. O Senhor Jesus Cristo definiu explicitamente a comissão dos Seus discípulos. Eles deveriam ser testemunhas de Sua morte e ressurreição, e proclamar no Seu Nome a oferta de perdão ao arrependido. Então disse; “E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai porém, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder”. O poder e a autoridade são entrelaçados. A autoridade do nosso testemunho é afiançada pela procuração do Espírito. Não temos qualquer direito de tentar sustentar nosso testemunho sem essa procuração. Foi escrito sobre este assunto que ‘Recebemos o Espírito Santo, e Ele concede, ou antes se torna em nós, poder; e mesmo este poder cessará de ser exercido no momento em que nos tornamos autodependentes ou autoconfiantes. A única esperança do crente ou da Igreja por poder na oração ou na pregação, ou no viver para Deus ou no trabalhar com Deus é encontrado na perpétua possessão e operação do Espírito.’

Comentando sobre Romanos 6:13 o Bispo Moule escreve: ‘O Apóstolo de fato chama o crente para se render a Deus o Espírito Santo como a um Poder e Presença que já habita interiormente em viva realidade, mas que está esperando, como esteve antes, pelas boas-vindas da alma para vir para dentro e tomar inteira possessão de todo o círculo e âmbito da vida. É um chamado para deixar a água que brota da montanha de Deus aumentar no crente, em seus propósitos e afeições, em suas obras e vontades, calma e seguramente na direção do seu bendito nível’. Deixemos bem claro aqui que, a obra de Deus só pode ser feita pelo poder do Seu Espírito, e como indivíduos precisamos tratar bem de perto com Ele para nos assegurar que estamos ligados a esta Pessoa, a Fonte de toda obra eficaz. Também nunca devemos nos esquecer que Ele, Que é o poder de Deus, somente nos usará para a tarefa que Deus já planejou para nós.

Atos 1:8 reitera a promessa e conclui o mandamento de Lucas 24:49, “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra”. O propósito do poder trazido pelo Espírito interior era para testemunhar. As trevas do coração humano só podem ser penetradas e iluminadas pelo poder do Espírito. Evidência, argumento, persuasão e até a pregação são de nenhum proveito sem ele. O testemunho Cristão não deve ser apenas fiel mas também frutífero, e isto é garantido por uma busca pessoal, que conta com a capacitação do Espírito Santo.

Nos primeiros versos de Atos 3 ocorre um notável milagre e no verso 12 lemos que quando Pedro viu que o povo correu a se ajuntar disse a eles, “Varões israelitas, por que vos admirais deste homem? Ou, por que fitais os olhos em nós, como se por nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?” Em nossos dias há em alguns círculos muita conversa sobre curas e poderes milagrosos, mas há também muitos tristes fracassos. O sensacionalismo é sempre perigoso, e o assim chamado milagre – que precisa da propaganda humana para chamar a atenção do povo – geralmente é falsificação. Pedro estava preocupado que o povo não pudesse entender o que tinha acontecido e ansioso para ver que toda honra fosse rendida a Ele, Quem sozinho opera maravilhas. Para citar o Bispo Moule outra vez, “Eu não seria enganado” ele escreve, “como se pretendesse relegar apenas à era apostólica toda as manifestações da presença e poder de Deus através de Seu povo em forma de sinais e maravilhas. Concluo, tanto da história da Igreja como da Escritura em I Corintios 13:8, que de maneira geral o comumente chamado milagre demonstra que o poder foi destinado somente aos primeiros dias apenas... Creio que perigos sutis e fortes tentações jazem ocultas onde os Cristãos ou a comunidade esta ansiosa pelo dom de tais faculdades miraculosas mais do que por um contínuo aprofundamento na humilhação do ego diante do Deus Santo e de um mais próximo e mais disciplinado andar com Ele’. Que palavras sábias! Ninguém em seu são juízo poderia negar que Deus pode e opera obras milagrosas em nossos dias, mas onde o milagre é incitado e toma o centro do palco, temos somente uma exibição do ego que não apenas fracassará mas será positivamente perigoso.

Nossa palavra também é usada em íntima conexão com o Espírito de Deus para descrever a eficácia do testemunho dos apóstolos, mesmo quando resistidos e perseguidos (4:3). O poder é dado como uma das qualificações que fizeram Estevão apto para o seu ofício como um diácono; e o Senhor Jesus Cristo é declarado durante Seu ministério terrestre como sendo cheio do poder Divino (10:38).

As Epístolas não nos provêem muitos exemplos de acoplamento do Espírito Santo e poder juntos. Romanos 15:13 dá como uma das evidências do poder do Espírito Santo operando na vida, “para que abundeis na esperança”. Isto certamente é um milagre da graça, quando uma pessoa pode ver além do material que a cerca por todos os lados, e estar animado com esperança mesmo nas mais densas trevas e nas situações mais desanimadoras. No verso 19 Paulo fala do “poder de sinais e prodígios, no poder do Espírito Santo; de modo que desde Jerusalém e arredores, até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo”. A demonstração de poder aqui é novamente vista para conduzir todos os pensamentos a um só fim; a glória de Cristo e a proclamação da Sua graça salvadora.

Em I Corintios 2:4-5 Paulo avalia sua própria pregação, que “não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”; seguramente o único objetivo digno da pregação.

As Epístolas aos Tessalonicenses nos provêem com um contraste. Na primeira Paulo escreve, “porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo e em plena convicção” e tomamos a imagem deste grupo de homens e mulheres emancipados estabelecidos em uma Colônia Romana, cuja nova fé fundada era óbvia para aqueles entre os quais viviam e, se odiada por alguns, era respeitada por todos (1:5). Na segunda carta encontramos direta advertência contra aquele cuja vinda “é segundo a eficácia de Satanás com todo o poder e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem” (2:9-10).

Mais uma referência poderia ser considerada relevante e planejada para trazer real regozijo e segurança a todo coração verdadeiramente Cristão, “Porque Deus não nos deu o espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (II Tm 1:7). Que maravilhosa combinação de elementos, e quão descritiva do poder e do amor, o gracioso método do Espírito Santo! Este é o poder que você e eu precisamos conhecer em toda a sua plenitude para que também possamos ser cheios do poder no testemunho e ver, em qualquer área na qual é Seu prazer operar, os milagres que redundem para Sua e somente Sua glória, por toda a eternidade.

Autor: J.C. Metcalfe
Do livro: “A Bíblia e a Vida Cheia do Espírito” (The Bible and the Spirit-filled Life)
Extraído da Revista O Vencedor

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